‘Vale Tudo’ está chegando ao fim: relembre os acertos e “bolas-fora” do remake

‘Vale Tudo’ está chegando ao fim: relembre os acertos e “bolas-fora” do remake

O remake de Vale Tudo, concebido para celebrar os 60 anos da TV Globo, chega ao fim nesta sexta-feira (17/10), após meses de intensa repercussão e debates acalorados. Refazer um clássico de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères era um desafio enorme, e a autora Manuela Dias buscou imprimir sua assinatura a todo custo. O resultado final é inegável: audiência alta, faturamento publicitário recorde e engajamento digital maciço.

No entanto, a nova versão, dirigida por Paulo Silvestrini, foi frequentemente criticada por perder a densidade dramática do original, transformando um complexo retrato da sociedade brasileira em uma colagem de ideias frouxas. Entre o sucesso de Ibope e a rejeição nas redes, a trama deixa um saldo de momentos brilhantes e erros primários que marcarão sua história. O público e a crítica se dividiram: o remake honrou sua matriz ou se perdeu na tentação de atualizar a obra por polêmica instantânea?

A seguir, relembramos os acertos e as bolas-fora que definiram o controverso Vale Tudo de 2025.

Os acertos

O impacto social direto

O remake conseguiu provar o poder da televisão aberta ao gerar impacto social real através da personagem Lucimar (Ingrid Gaigher). Sua briga na justiça pelos direitos de pensão alimentícia do filho inspirou mais de 270 mil mulheres a buscarem informações com a Defensoria Pública. Essa é uma das poucas tramas que funcionaram plenamente, mostrando que a ficção pode, sim, extrair drama da realidade e devolver resoluções sociais importantes.

Taís Araújo e Débora Bloch

A escalação de Taís Araújo como Raquel Accioly foi um ponto altíssimo, dando credibilidade e sustentando o eixo moral da trama com sua presença forte e decidida. Do lado oposto, Débora Bloch entregou uma Odete Roitman magistral, reinventada como debochada, divertida e sedutora. A atriz brilhou tanto que a personagem se tornou irresistível, sendo considerada por muitos o ponto mais positivo da adaptação.

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Crédito: Globo / Reprodução

A naturalidade em temas delicados

A novela demonstrou sensibilidade ao tratar de temas íntimos e emocionais. As sessões de terapia de Heleninha (Paolla Oliveira) abordando o alcoolismo trouxeram vulnerabilidade e verdade à tela. Além disso, a naturalidade ao abordar a falta de orgasmo de Leila (Carolina Dieckmmann) e as dificuldades emocionais de Renato (João Vicente de Castro) emocionaram o público.

O brilho dos coadjuvantes

Alguns personagens secundários roubaram a cena e ganharam profundidade na adaptação. Celina (Malu Galli) deixou de ser apenas a tia submissa para se tornar uma mulher interessante, vivendo relações intensas com Estéban (Caco Ciocler) e Olavo (Ricardo Teodoro). O vilão Marco Aurélio (Alexandre Nero) conseguiu unir cinismo e humor, revelando um lado humano.

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Os erros

O esvaziamento da crítica social

A escolha da autora Manuela Dias resultou em um esvaziamento das camadas que faziam da novela de 1988 um retrato complexo da sociedade. Houve uma perceptível falta de coragem para incomodar e escancarar o cinismo da elite, preferindo amenizar temas polêmicos para soar mais “atual”. Essa neutralização da crítica transformou a trama em algo protocolar, perdendo a força política e a essência moral que questionava se “vale a pena ser honesto no Brasil”.

O destino da cena-chave

Uma das falhas mais gritantes foi a reescrita da cena crucial em que Maria de Fátima, grávida e escorraçada, busca apoio de Raquel. No original, Raquel estava rica, o que transformava o encontro em um poderoso choque de inversão social. Ao retirar esse detalhe, a versão atual transformou um momento que era para ser emblemático em um episódio qualquer, descaracterizando seu sentido original.

A decepção na morte de Odete Roitman

A cena mais esperada do folhetim, a morte de Odete Roitman, decepcionou o público, apesar de ter gerado um recorde de audiência. A execução do assassinato foi criticada como “fria”, “tosca” e “anticlimática”, com internautas comparando-a a uma “série de baixo orçamento“. Além disso, a vilã concentrou tanto protagonismo ao longo da trama que o famoso mistério perdeu impacto.

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Crédito: Globo / Reprodução

A descaracterização de Maria de Fátima

Maria de Fátima (Bella Campos) e César (Cauã Reymond), em vez de exporem a crueldade do oportunismo, foram tratados quase como uma duplinha cômica. A vilã, que no original representava a implacável alpinista social, foi desfigurada, perdendo sua perversidade para se tornar uma trambiqueira simplificada, gerando resistência em parte do público.

O legado de um clássico atualizado

A versão de Vale Tudo (2025) chega ao fim após meses de debates, consolidando-se como um sucesso financeiro e de engajamento para a Globo. Contudo, a adaptação foi criticada por perder a profundidade política do original, sendo vista como uma colagem de ideias frouxas que trocou o dilema ético por polêmica instantânea. O resultado é um produto de temporada que, apesar da rentabilidade recorde, corre o risco de ser rapidamente esquecido por não ter honrado a matriz de 1988.

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